Feliz, mas nem tanto

“A clínica mostra que o compromisso que as pessoas estabelecem com a felicidade é de uma tal ordem, que torna o viver muito difícil. Para ser feliz é preciso ser mais que bonito, perfeito; ser mais que rico, milionário; ser mais que poderoso, importantíssimo; ter mais que desejos, gozar muito além da imaginação.”

Carmen Bruder- psicanalista

 

Enfim, para ser feliz não se pode ficar triste, nem solitário, nem desprestigiado e nem, muito menos, sem ser amado. Ah!, pretensão demais transforma o viver numa competição, num rodeio em que se é o boi, e ele não se cansa de rodopiar, jamais.

Diria que dentre as coisas mais importantes para ser feliz, necessário se faz saber sofrer sem se desesperar porque se sofre. O que nos faz sofrer, o que causa indignação, isso existe. Há dores, há lutas, há perdas, há desamores, traições, injustiças, decepções.

Como ser feliz com elas? E há, ainda, a frágil condição de quem quer ser muito, diante do pouco que se é. Quando se escuta as pessoas, é extraordinário perceber que a mesma coisa que garante a felicidade de uns é o maior problema de outros. O casamento, por exemplo, há quem não consiga ser feliz sem ele, há quem não consiga ser com ele. Acompanhar os filhos ao parque, a mulher às compras, o marido ao futebol, momentos de prazer ou de sofrimento?

A vida não é e não pode ser igual pra todos, o que agrada a João pode escravizar Pedro. Então como estabelecer metas de amplitude geral e sair atrás delas como se fossem potes de ouro no fim do arco-íris? Como acreditar que há uma só forma correta de fazer as coisas? Não há; é preciso que cada um encontre a sua forma e, o que talvez seja mais difícil, que possa aproveitá-la nesses fugazes momentos de encontros fortuitos.

E quando o encontro não se dá? Que tenhamos ao menos o direito de sofrer. Felicidade não pode ser uma meta e só pode ser aproveitada como presente para o espírito. Ficar triste precisa ser garantia assegurada para quem e por quem habita no mundo humano das palavras, dos encontros e das despedidas. Talvez mais simples, no saber do poeta Mário Quintana: ?Se agente consegue Expressar com felicidade A infelicidade Já não será tão Infeliz assim.?

 

 

 

 

 

Carmen Bruder é psicanalista. cbruderfonseca@hotmail.com

mundomulher 

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