Quero parar de fumar, mas não fumo!

Duas manchas no pulmão direito, 32 anos, fumante passiva. Filha de uma senhora de 53 anos, três infartos, cinco pontes de safena, tabagista há 40 anos. Ainda fumante.

Fumo desde o primeiro mês de minha concepção, sem nunca ter querido fumar.Quero urgentemente parar de fumar, sem nunca ter fumado.

Minha única mãe e eu, sua única filha.

Todas as palavras, todos as súplicas de amor e medo, todos os métodos e medicamentos foram usados…Todas as minhas lágrimas secaram…

O cigarro me venceu! Ele foi mais forte do que o amor de minha mãe por mim. Sonho em receber um telefonema “parei de fumar”, mas é só um sonho.

A realidade é que amanhã ou depois de amanhã, ou talvez alguns poucos anos, a única ligação que receberei será avisando que minha mãe morreu!

Me transporto para a triste solenidade do velório de minha mãe. Consigo imaginar todos os meus amigos, seus semblantes tristes, solícitos com minha dor, e eu ali, sentindo-me só e fracassada – vencida pelo cigarro.

Sempre que me imagino nessa situação horrível, este capítulo da minha vida que não foi escrito por mim, e pelo qual todos terão que passar um dia, sinto-me pequena e derrotada pelo amigo cigarro! Ele foi mais íntimo, mais amigo, mais cúmplice do que eu.

Minhas únicas amigas – fumantes. Quero parar de fumar e não posso, é desesperador.

Está além do meu querer, fumo desde meu primeiro mês de vida sem nunca ter querido fumar!

Parar de fumar o cigarro que não beija os meus lábios consiste em não ser filha de minha mãe, que tanto amo, de não ter as amigas que tenho e, conseqüentemente, não ser o que sou.

Por isto, continuo fumando o cigarro que nunca comprei. Resta ao menos sonhar… sonhar em receber a ligação de minha mãe que nunca virá…

Quero parar de fumar… e não é um grande começo porque não depende de mim. O cigarro me venceu, não consegui convencer as pessoas que mais amo a viverem sem ele.

E eu, que não vivo sem elas, tenho que continuar fumando a dor…

Não posso querer viver as vidas que não me pertencem, não posso querer respirar o ar puro de um corpo que não é meu, não posso dar mais valor à vida que não é minha.

Assim, vou tragando o cigarro que nunca esteve entre meus dedos e sorvendo a dor deste relato.

Relato de quem um dia quis parar de fumar, pela minha mãe, pelos meus amigos e tantos outros que não sei o nome. Todos nascidos em dia, mês e anos que não importam…

Todos serão sepultados em dia, mês e anos ainda incertos, mas o que é certo é que chegará mais cedo que o de costume, pelas mãos do amigo fiel chamado cigarro.

SIMONE CAMARGO | ADVOGADA, 32 ANOS, NÃO-FUMANTE

Fonte: Zero Hora
Edição: Lucilene Rocha

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