Entrevista sobre as consequências de tomar remédios exageradamente, principalmente em idosos

Basta uma dorzinha aqui outra ali, e lá estamos tomando um remédio pra tudo. Se desconfia de alguma doença, se baseia pelo remédio que o vizinho tomou quando teve a mesma doença, e nisso há um descontrole e a irresponsabilidade de tomar remédios sem prescrição médica.

Algumas pessoas ainda tomam uma quantidade exagerada de medicamentos todos os dias: três ou quatro no café da manhã, outros tantos no almoço e no jantar e, à noite, medicamentos para dormir. Isso gera inúmeros problemas à saúde pois o organismo de cada pessoa é diferente de outra e nenhum médico é capaz de prever como o paciente reagirá no momento em que prescreve a medicação.

Remédios só devem ser tomados com cuidado, depois de diagnóstico e avaliação médica. Remédio demais faz mal à saúde.

Uma entrevista bastante interessante com o Dr. Fabiano Rocha, médico, professor de Geriatria na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, responde à algumas perguntas do Dr. Dráuzio Varella sobre o abuso de medicamentos de idosos.

Confira um trecho da entrevista abaixo:

INTERAÇÃO DE MEDICAMENTOS

Drauzio – Pessoas de idade costumam tomar muitos remédios. São remédios para diabetes, pressão alta, para a memória e mais a vitamina que a filha trouxe da farmácia. Você acha que todos os remédios usados pelos idosos são realmente necessários?

Fabiano Rocha – Normalmente não. Por causa da fragmentação da Medicina em diversas especialidades, a tendência é cada especialista avaliar sua área e indicar um medicamento específico. No conjunto, porém, a interação dos medicamentos prescritos pelos diversos especialistas que a pessoa se vê obrigada a consultar pode não dar certo.

Em geral, a partir do quarto medicamento, ocorrem efeitos colaterais, alguns realmente muito sérios, a ponto de provocar dificuldade de raciocínio, perturbações do equilíbrio,causa de quedas frequentes e outras alterações erroneamente relacionadas ao processo de envelhecimento.

REMÉDIOS PARA DORMIR

Drauzio – Quais são os medicamentos que os idosos tomam com mais frequência?

Fabiano Rocha – São os psicotrópicos. Nós observamos que quanto mais idoso, mais medicamentos desse tipo são utilizados. Alguns pacientes os tomam para ficar um pouco mais calmos sem que o médico tenha definido exatamente o porquê da agitação que os perturba. Outros, porque têm dificuldade para dormir.

Embora possam ocorrer alterações de sono ao longo do processo de envelhecimento, do ponto de vista fisiológico, esses medicamentos não deveriam ser indicados antes de investigação precisa da causa desse distúrbio, porque ele pode estar relacionado a certas doenças que merecem diagnóstico e tratamento específico.

Drauzio – É normal a pessoa de idade apresentar alterações de sono?

Fabiano Rocha – Podemos dizer que, durante o processo de envelhecimento, as pessoas vão ficando com o sono mais leve. No entanto, o número de horas que dormem é muito parecido com o que dormiam quando jovens.

Há alguns aspectos da dinâmica do sono dos idosos que a família precisa entender melhor até para conseguir ajudar. É frequente encontrar pacientes que dormem cedo por pura questão de hábito. Consequentemente, acordam muito cedo, lá pelas 4 ou 5 horas da manhã. Mas, se computarmos as horas que dormiram, apesar de terem levantado muito cedo, perceberemos que foi um número bastante adequado.

No entanto, eles podem estar acordando por alguns outros motivos que precisam ser investigados. Nos homens, por exemplo, é muito comum o sono ser interrompido pela necessidade de ir ao banheiro para urinar.

QUANTO MENOS, MELHOR

Drauzio – Quando recebe um paciente que está tomando vários medicamentos, o que você costuma fazer?

Fabiano Rocha – Minha vontade é sempre suspender o maior número possível de medicamentos e invariavelmente consigo racionalizar de alguma forma seu uso. Às vezes, substituindo por outros tipos de tratamento, é possível reduzir para dois essenciais os nove medicamentos que o paciente vinha tomando. Outras vezes, só é possível retirar um ou dois. Os resultados ficam evidentes na segunda consulta quando tanto ele quanto a família referem-se à melhora de disposição e do funcionamento da memória, o que vem provar que as alterações anteriores eram por conta dos efeitos colaterais dos medicamentos e não propriamente por conta do processo de envelhecimento.

Drauzio – Na verdade alguns desses medicamentos são absolutamente inúteis. Não existe, por exemplo, remédio eficaz para a memória, mas são muitos os idosos que tomam esse tipo de medicamento.

Fabiano Rocha – O bom funcionamento da memória não está ligado ao uso de medicamentos. Se existe um déficit de memória, suas causas têm de ser investigadas e, feito um diagnóstico, devem ser tratadas. Essa abordagem racional do problema, às vezes, causa estranheza para a família.

Drauzio – Há outros remédios inúteis como esses para a memória?

Fabiano Rocha – Existe a chamada prescrição em cascata. O médico receita uma medicação para a dor, por exemplo, que tem como efeito colateral a constipação intestinal. Daí, o hábito intestinal da pessoa, que era diário, começa a espaçar-se e ela volta ao médico com a queixa de que seu intestino não está funcionando direito. Na tentativa de resolver o problema, ele prescreve outro e mais outro medicamento.

A prescrição em cascata explica em parte a quantidade enorme de remédios que toma o idoso.

Drauzio – Quer dizer que o paciente toma um remédio e depois outro para o efeito colateral que o primeiro provocou e assim sucessivamente. Na verdade, se deixasse de usar o primeiro, todos os outros seriam absolutamente desnecessários.

Fabiano Rocha – No caso da constipação intestinal, por exemplo, bastava apenas orientar os hábitos alimentares e estaria resolvido o problema.

 

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Fonte: Com informações de DrauzioVarella

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