Casamento a três (Um casal e um bebê)

Ele é tão pequeno, mas já consegue virar a vida do casal de pernas para o ar. Alguns encaram juntos o stress e se tornam ainda mais unidos. Outros passam por momentos de crise, mas superam. E um terceiro grupo vê o casamento desmoronar. O que faz a diferença?

A chegada de um filho mexe profundamente com qualquer casamento. O bebê é uma alegria, mas os primeiros meses são tempos delicados de adaptação, noites mal dormidas e inseguranças. Aos poucos, bate a saudade do marido, do namoro, dos programas a dois. É bem possível que, à medida que o bebê cresce, o casal encontre seu espaço – mas não há garantias. Filhos não necessariamente fortalecem a relação: se a balança emocional não estiver equilibrada, o casamento, confrontado com tantas mudanças, vai sofrer e em alguns casos a separação torna-se inevitável. A transição do casamento para a paternidade foi o tema escolhido pela terapeuta familiar Clarissa Corrêa Menezes para sua tese de mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. No estudo, realizado entre 1999 e 2001, ela acompanhou cinco casais desde a gestação até o segundo ano do bebê. “Dois se separaram; outros dois enfrentaram uma adaptação crítica, mas continuaram juntos; e apenas um passou pelo período sem grandes dificuldades e sentindo a relação mais firme”, conta ela. Primeiro as semelhanças: os cinco ficaram igualmente apaixonados pelo bebê, tiveram de reorganizar as suas rotinas e sofreram todo o stress dos meses iniciais, quando a extrema dependência da criança acaba ditando o ritmo da casa – tudo gira em torno das horas em que o bebê acorda, dorme, mama, quer brincar… A principal característica dos casais que permaneceram juntos foi a capacidade de estimular a parceria e o companheirismo. “O casal que mais se sentiu realizado foi aquele em que ambos eram pessoas amadurecidas, havia muito diálogo e o pai participava ativamente de todos os cuidados com o bebê”, observa Clarissa.O pai tem um papel essencial logo após o nascimento da criança – e entender isso é meio caminho andado para o casamento passar incólume nos primeiros tempos pós-chegada do filho. “Os mais participativos compreendem melhor o zelo da mãe e contribuem para que ela não fique estressada. Cabe à mulher aprender a confiar no marido e a dividir as novas responsabilidades”, explica a terapeuta. Claro que algumas tarefas, como amamentar, inevitavelmente são da mãe. Mas nada impede que o homem vá buscar a criança no berço quando ela desperta com fome, troque as fraldas, dê banho ou simplesmente cuide dela enquanto a mulher usufrui de alguns momentos para si.

Aprendendo a dividir

Ponto para o advogadoAnténori Trevisan Neto, 30 anos, que faz questão de dividir com a mulher, a designer Petruska Albano, 30, os cuidados com Isadora, 9 meses. “Tenho plena confiança de deixar nossa filha com meu marido quando saio com as amigas. Sei que dá conta”, afirma. Para ele, assumir a filha é muito natural: “Quando chego do trabalho, dedico as primeiras horas em casa à Isadora e dou um tempo para minha esposa fazer o que gosta. Nesse intervalo, preparo a papinha, troco fralda, faço a bebê dormir. Sei que o impacto do nascimento de uma criança é maior na vida da mãe e procuro estar presente, para dividir tudo. Só assim vamos viver de modo positivo essa experiência”.

Tempo para o romance

Outro ingrediente do sucesso dos que permanecem juntos é o esforço para manter a identidade de casal. É natural se apaixonar pelo bebê e querer passar o tempo todo ao lado dele. Mas os dois não podem esquecer que, antes de serem pais, já eram marido e mulher. “Aos poucos, é fundamental criar brechas na rotina para sair do papel de pai e mãe e retomar atividades como sair para jantar, ir ao cinema, namorar e cultivar momentos de intimidade”, aconselha Clarissa.É o que faz Ana Cláudia Aguiar Barrera, 35 anos, gerente de produtos de uma grande empresa: “Trabalho o dia todo e deixo nossa filha, Rebecca, na escola. Quando volto, à noite, quero dedicar meu tempo a ela. Por isso, marco de almoçar com meu marido no meio do dia para podermos conversar a sós. Também falamos muito por telefone. Namorar, mesmo, só depois que a pequena cai no sono”. Satisfeito com essa forma de organizar a rotina, o marido, o gestor de marketing Eliezer Barrera, 37 anos, diz que procura dividir seu tempo em três: “Uma parte para mim, uma para minha esposa e outra para nossa filha… Com um pouco de planejamento, tudo se ajeita sem problemas”

A retomada do sexo

Namorar depois de colocar o bebê na cama é apenas uma das estratégias para preservar a intimidade. Abrir espaço na agenda deve servir para que, aos poucos, marido e mulher retomem a vida sexual. Em geral, um mês após dar à luz, a mulher já está fisicamente preparada para o recomeço. Mas também precisa estar psicologicamente madura para encarar a nova situação. “É natural que ela ainda esteja descontente com suas formas, mas isso não deve se tornar motivo para comentários sem fim sobre a insatisfação com o corpo”, diz a terapeuta sexual Jaqueline Brendler, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana. Buscar uma dieta adequada e exercícios aprovados pelo médico são a melhor forma de fazer o caminho de volta. Porém, o mais importante é ter paciência e evitar frases do tipo “estou gorda”, que só reforçam o descontentamento e a insegurança.Se a relação sexual não acontecer nas primeiras tentativas, não se preocupe. O que não pode é perder o hábito de se beijar na boca, se abraçar e trocar carícias. Naturalmente, essas manifestações de afeto voltam a assumir um caráter erótico. Uma armadilha da qual os casais devem fugir é a de se tratar por “pai” e “mãe” – um erro que pode prejudicar a vida a dois, principalmente no aspecto sexual. “Os parceiros precisam aprender a desvincular a experiência da paternidade da vivência como casal. Eles podem e devem se realizar nos dois papéis”, aconselha Jaqueline.

Deslumbramento tem limite

Não que seja fácil conciliar tudo isso. Afinal, filhos pedem carinho, reconhecimento, resposta. Sorriem, fazem caretas, balbuciam qualquer coisa e, pronto, monopolizam facilmente a atenção dos pais em torno das suas gracinhas. Mas tanto deslumbramento precisa ter limites. “Algumas mulheres acabam virando mães crônicas: esquecem todos os seus papéis anteriores para se dedicar apenas ao filho. Mas, com isso, podem estar se escondendo de uma frustração no casamento ou até na vida profissional”, afirma a psicóloga Ana Rosa Sancovski, coordenadora-geral dos cursos de especialização em psicologia da Faculdade de Medicina do ABC. “É possível ser uma mãe presente e, ao mesmo tempo, cultivar outros focos de realização. É mais saudável inclusive para o bebê.”
A empresária Renata Giordano de Castro, 35 anos, ficou completamente apaixonada por seu bebê desde o momento em que descobriu a gravidez. Mas Laura, hoje com 8 meses, nunca dominou as atenções da mãe: “Sempre trabalhei muito e sinto necessidade de me realizar profissionalmente. Tanto que voltei da maternidade num domingo e, na segunda, já estava trabalhando no computador de casa. Também não perdi o contato com os amigos e a família”. Hoje, novamente grávida e no terceiro mês de gestação, Renata compartilha com o marido, Almeris Armilito, 43 anos, consultor de fitness, a convicção de que vão passar por essa nova fase com tranqüilidade: “A primeira gravidez foi calma e conseguimos nos organizar muito bem. O segredo é preservar o diálogo. É preciso dividir o que estamos sentindo sempre”, aconselha ele.Para a psicóloga, o casal está no caminho certo. Ao investir num relacionamento saudável e equilibrado, os pais beneficiam imediatamente os filhos. Antenadíssimos, eles captam ambientes hostis e ficam tensos quando os pais discutem ou se mostram insatisfeitos. “Um casal tranqüilo, que se realiza também nos papéis de marido e mulher e de profissional, consegue transmitir essa sensação para a criança”, garante a psicóloga.

Quando três é melhor

Dá trabalho, exige esforço, paciência e tolerância, mas vale a pena investir nesse equilíbrio. “O início é estressante, mas de uma forma positiva”, lembra Ana Sancovski. “A chegada do bebê provoca o mesmo tipo de tensão que uma promoção no trabalho. Por um lado, traz alegria e motivação e, por outro, é razão de ansiedade diante das novas tarefas.” Para casais que se comunicam com franqueza e cultivam uma boa dose de cumplicidade, o filho vem somar e a situação tem tudo para fortalecer cada vez mais a história de amor: “O bebê traz uma carga de sonhos que os pais vão compartilhar. Ele também estimula o espírito de luta e multiplica a coragem dos pais para enfrentar situações adversas”. De acordo com a psicóloga, não param aí os pontos positivos do nascimento de um bebê: “Ao criar o filho, o casal passa a compreender melhor os próprios pais e isso resulta em mais harmonia familiar. Quanto mais saudáveis forem as relações que compõem essa rede, melhor para o bebê e a família”.

Mães, menos…

Para muitas mulheres, deixar o bebê aos cuidados de outra pessoa é um verdadeiro sofrimento. Em parte, essa resistência é típica da natureza feminina: “Os próprios hormônios fazem com que, nos primeiros meses, a mãe sinta vontade de estar sempre próxima do filho, inclusive para amamentá-lo. Mas a mulher precisa vencer esse impulso e criar condições para retomar algumas atividades pessoais e estar com o marido”, recomenda a psicóloga Ana Rosa Sancovski. Manter um parente sempre com a criança ou treinar um profissional de confiança para cuidar dela pode ser uma ótima medida de tranqüilidade para todos. “No início, o bebê ainda é muito dependente. Mas, após o terceiro mês, o casal já pode tirar pelo menos duas horas, duas vezes por semana, para fazer um passeio juntos”, indica a ginecologista e terapeuta sexual Jaqueline Brendler. Aos poucos, os dois vão se reaproximando e voltando a ter prazer em passar momentos a sós. É natural que as atenções se voltem para o bebê nos primeiros meses, mas o casal nunca deve deixar de se observar. Pergunte ao outro como ele está passando por essa fase, converse sobre os desafios da nova realidade e também sobre os ganhos dessa grande realização que é ter um filho.• Acostume o bebê a dormir no próprio quarto desde os primeiros meses, preservando o espaço do casal. Use uma babá eletrônica para se sentir mais segura.• Você e seu marido podem estabelecer algumas pausas na rotina para estar a sós e transformar esses encontros numa espécie de ritual de aproximação. Vale acordar um pouco antes do bebê para tomar café da manhã juntos ou combinar o almoço ou o jantar num horário em que o filho dormiu.• Tanto a mulher quanto o marido devem se organizar de modo a manter pelo menos uma atividade voltada exclusivamente para o próprio bem-estar. Pode ser uma aula de academia, um curso de idiomas, um encontro com amigos, tanto faz… É uma pausa para se cuidar e resgatar a individualidade.  

Atitudes que fazem a diferença

É natural que as atenções se voltem para o bebê nos primeiros meses, mas o casal nunca deve deixar de se observar. Pergunte ao outro como ele está passando por essa fase, converse sobre os desafios da nova realidade e também sobre os ganhos dessa grande realização que é ter um filho.• Acostume o bebê a dormir no próprio quarto desde os primeiros meses, preservando o espaço do casal. Use uma babá eletrônica para se sentir mais segura.• Você e seu marido podem estabelecer algumas pausas na rotina para estar a sós e transformar esses encontros numa espécie de ritual de aproximação. Vale acordar um pouco antes do bebê para tomar café da manhã juntos ou combinar o almoço ou o jantar num horário em que o filho dormiu.• Tanto a mulher quanto o marido devem se organizar de modo a manter pelo menos uma atividade voltada exclusivamente para o próprio bem-estar. Pode ser uma aula de academia, um curso de idiomas, um encontro com amigos, tanto faz… É uma pausa para se cuidar e resgatar a individualidade.

Por Suzana Lakatos e Carolina Prado

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