Livro “A Vida Sabe o que Faz”, de Zibia Gasparetto, aborda superação e amor

Particularmente adoro as obras de Zibia Gasparetto, a mais célebre autora de romances espiritualistas em atividade no país. Ela lança, neste mês, o livro “A Vida Sabe o que Faz”, ditado pelo espírito Lucius, segundo a escritora. A obra narra a história de um desencontro amoroso protagonizado por um militar que, ao retornar da Itália, com o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), encontra sua amada nos braços de outro.

Carlos vai combater na Itália durante a Segunda Guerra Mundial e é dado como morto. Mas ele volta ao Brasil e reencontra Isabel, a moça com quem havia prometido se casar. Só que ela, depois de cinco anos de luto, se envolveu com Gilberto para tentar seguir em frente. Os sentimentos ficam confusos. “Se as respostas não estão claras, é melhor ter calma e dar um tempo para a vida – ela sempre sabe o que faz.”

A emocionante trajetória do trio trará lições de superação e sobre como lidar com as complicadas questões do amor.


Leia o primeiro capítulo de “A Vida Sabe o que Faz”:

*

Os últimos raios de sol coloriam o céu naquele fim de tarde e Isabel olhava sem pôr atenção, perdida em seus pensamentos. Nem o mar, em seu vaivém, espalhando sua espuma branca na areia molhada, conseguia fazê-la notar a beleza da tarde e a paisagem à sua frente.

Desde que chegara ao Guarujá, não conseguia pensar em outra coisa. Precisava tomar uma decisão, mas estava confusa, não tinha certeza de nada.

Como seria seu futuro? Deveria ficar com Carlos ou com Gilberto? Carlos fora seu grande amor e desde criança eles haviam se prometido um ao outro. Quando ela completou vinte anos e ele, vinte e cinco, ficaram noivos. Ambas as famílias aprovaram o noivado e o casamento era coisa decidida. Isabel nunca imaginara sua vida longe dele.

Mas a guerra na Europa estava no auge. O Brasil havia declarado guerra contra o Eixo, aliando -se aos Estados Unidos e convocando rapazes para combater na Itália.

Carlos foi um dos primeiros a ser convocado. Isabel precisou aceitar sua partida no primeiro batalhão da Força Expedicionária Brasileira. Chorosa, despediu -se dele rezando para que voltasse são e salvo.

O tempo foi passando, e ela lhe escrevia todas as semanas, apesar de as respostas serem raras. Nas três cartas que recebeu, durante todo tempo que durou a guerra, ele falava da saudade que sentia de todos, especialmente dela, e do horror da guerra, revoltado com a violência que era obrigado a suportar todos os dias.

Finalmente a guerra chegou ao fim e o coração de Isabel encheu -se de esperança. Fazia mais de seis meses que ela não tinha notícias e esperava com ansiedade a volta de Carlos.

A cidade de São Paulo engalanava -se para receber os soldados que retornavam da guerra e desfilariam pela avenida São João. O povo foi para a rua saudá-los, e Isabel estava lá, esperando ver Carlos entre eles.

Quando começaram a desfilar, o povo misturou -se a eles, que só conseguiam andar em fila indiana, parando aqui e ali, sendo abraçados e beijados pelas moças que festejavam a volta. As pessoas aplaudiam com entusiasmo e faziam com os dedos o V da vitória.

Foi com o coração aos saltos que Isabel viu um por um desfilar entre os abraços e beijos da multidão, porém Carlos não estava lá.

Quando o desfile acabou, ela voltou para casa decepcionada.

Sua mãe tentou consolá-la:

– Não desanime. Outros batalhões vão chegar. Eu li no jornal.

– Amanhã mesmo vou procurar notícias no regimento dele.

No dia seguinte Isabel foi ao quartel, mas não conseguiu as informações que desejava. Havia muita confusão e eles a aconselharam a esperar um pouco mais.

O tempo foi passando e ela não obtinha nenhuma notícia de Carlos. Nenhuma carta ou bilhete. Foi diversas vezes à casa da família dele em busca de notícias, mas todos estavam apreensivos, porquanto todos os batalhões já tinham voltado e ninguém sabia nada sobre ele.

Por fim, Carlos foi dado como desaparecido. Nos primeiros tempos ela manteve esperança de que ele voltaria, mas depois, à medida que o tempo passava, foi desanimando. Três anos depois, certa de que ele havia morrido, como a maioria das pessoas acreditavam, ela decidiu reagir e tocar a vida para frente.

Trabalhava como secretária bilíngue em uma grande empresa, esforçou -se para progredir na carreira e voltou à vida social e habitual.

Apesar da saudade que sentia de Carlos, procurou a prima Diva, com quem frequentava teatros, cinemas, bailes.

Em um dia chuvoso, quando as duas, tendo saído do cinema, abrigaram -se embaixo de uma marquise próxima esperando que o tempo abrandasse, um rapaz aproximou -se correndo, esbarrando nas duas.

Ele as olhou e disse sorrindo:

– Desculpe. Foi sem querer.

As duas, que haviam se encolhido um pouco, sorriram e não disseram nada. Ele olhou a chuva caindo e considerou:

– Está ventando muito. Se ficarmos aqui até a chuva passar, ficaremos muito molhados.

– Se formos embora será pior – considerou Diva dando de ombros.

– Tenho uma sugestão melhor. Caminhando alguns metros, no fim desta marquise, há uma confeitaria onde poderemos nos sentar, tomar alguma coisa e esperar a chuva passar.

Elas olharam indecisas. Ele continuou:

– Permitam que me apresente. Meu nome é Gilberto de Souza Mendes. Médico. E vocês?

– Eu me chamo Diva Santana.

– E eu Isabel Marques.

– Já estamos apresentados. Vamos?

– Tem certeza de que há mesmo essa confeitaria? – indagou Diva. – Não quero estragar meu vestido novo.

– Claro. Já estive lá algumas vezes.

Eles foram caminhando com alguma dificuldade, tentando não desviar da cobertura, uma vez que várias pessoas estavam abrigadas ali.

Foi com alívio que entraram na confeitaria.

– Vamos procurar uma mesa.

Gilberto conversou com um garçom, que lhe indicou uma mesa em um dos cantos. Era pequena, mas havia três cadeiras. Ele esperou que as duas se acomodassem e sentou-se também.

As moças seguraram o riso. Gilberto, alto e de ombros largos, teve certa dificuldade para se acomodar. Foi então que os três se olharam.

Diva era magra, morena, cabelos lisos, traços delicados. Já Isabel era alta, corpo benfeito, cabelos castanho-claros, ondulados e na altura dos ombros.

Gilberto sorriu e seus olhos cor de mel brilharam maliciosos, quando perguntou:

– Passei no exame?

As duas riram e foi Isabel quem respondeu:

– Desculpe se nossos olhares foram indiscretos. Lá fora estava escuro. Foi aqui que realmente nos vimos.

– Eu logo vi que vocês eram bonitas.

– Ah! Foi por isso que se preocupou em nos abrigar? – indagou Diva maliciosa.

– Claro. Se fossem feias, eu as deixaria na chuva.

Elas riram e a conversa fluiu fácil enquanto tomavam um café e saboreavam alguns salgadinhos que Gilberto pedira. Apesar da brincadeira, Gilberto não demonstrou interesse particular por nenhuma das duas. Uma hora mais tarde, quando a chuva passou, trocaram telefones e se despediram.

Uma semana depois, Gilberto ligou para Isabel convidando -a para sair. A princípio, ela não se entusiasmou, mas tanto Diva como Laura, sua mãe, incentivaram -na a ir.

– O rapaz é bonito, agradável, educado. Você deveria conhecê-lo melhor – disse Laura.

– Mas não estou interessada – replicou Isabel.

– Pois eu, se ele me convidasse, iria.

– Vá você em meu lugar.

– Claro que não. Ele preferiu você. Depois, você não está sendo pedida em casamento. Poderá passar algumas horas agradáveis e, se não quiser continuar, não precisa.

– Você vai querer ficar sozinha em casa pensando nos problemas da vida? – indagou Laura.

– Está bem. Eu vou.

Laura continuou:

– Ele disse aonde vai levá -la?

– Convidou-me para jantar. Vai passar em casa às oito para me buscar.

– Já pensou em que roupa vai pôr? – perguntou Diva.

– Não. Resolvo na hora.

– Que falta de entusiasmo! Se fosse comigo, iria ao cabeleireiro, compraria um vestido bem bonito.

Isabel deu de ombros e encerrou o assunto.

Oito horas em ponto a campainha tocou e Laura foi abrir. Gilberto estava na soleira, e ela disse sorrindo:

– Você deve ser o Gilberto. Entre, por favor.

Ele entrou e Laura continuou:

– Isabel está se arrumando. Sente -se. Vou mandar avisá-la que chegou.

Laura foi ter com Berta e pediu-lhe que avisasse a filha. Depois se aproximou de Gilberto, dizendo:

– Meu nome é Laura, sou mãe de Isabel.

Ele se levantou e apertou a mão que ela lhe estendia com certa reverência:

– É um prazer conhecê-la.

– Sente-se. Aceita tomar um copo de vinho, uma água ou um café?

– Não se incomode. Estou bem assim.

Laura acomodou-se na poltrona ao lado, mas não teve tempo de continuar a conversa porque Isabel aproximou-se acompanhada pela prima.

Gilberto levantou-se e estendeu a mão a Diva, que estava na frente, dizendo enquanto sorria:

– Como vai?

– Estou bem. E sua aparência está ótima.

Isabel, por sua vez, aproximou-se estendendo a mão para cumprimentá-lo. Estava linda em seu vestido de seda verde-escuro, e os grandes olhos cor de mel de Gilberto fixavam-no curiosos. Ele não se conteve:

– Você está linda!

– Obrigada. Você também está muito elegante.

Ele sorriu e, olhando para Diva, convidou:

– Você vem conosco?

– Não. Hoje tenho outro compromisso – mentiu ela.

Sentiu que ele a convidou por gentileza e que realmente estava interessado em Isabel, o que a deixava muito contente, pois desde que Carlos fora dado como desaparecido e ela soubera que ele provavelmente não voltaria, nunca mais se interessara por outro homem.

Diva gostaria que ela se apaixonasse de novo e voltasse a viver.

– Vamos? – perguntou Gilberto.

Isabel concordou, eles se despediram e saíram. O carro dele estava diante da casa e ele abriu a porta para que Isabel se acomodasse. Depois deu a volta e sentou-se ao lado dela:

– Você tem preferência por algum lugar?

– Não. Escolha você.

– Eu reservei uma mesa em um restaurante muito agradável. Espero que você goste.

Isabel assentiu. Ele colocou o carro em movimento e pouco depois disse:

– Desde aquela noite em que nos conhecemos venho pensando em você.

Isabel fez um gesto quase imperceptível de contrariedade, mas ele notou e mudou de assunto. Perguntou que tipo de música ela preferia. Ela disse, ele ligou o som, começou a comentar sobre as músicas em voga e, para alívio de Isabel, não voltou mais ao assunto pessoal.

O restaurante era muito elegante, estava lotado, e Gilberto comentou:

– Se eu não tivesse reservado, não poderíamos jantar aqui.

– O lugar é muito agradável.

Foram conduzidos a uma mesa perto de uma janela, ao lado de um grande vaso com um maravilhoso arranjo de flores naturais. Isabel não se conteve:

– Que lindo!

Gilberto puxou a cadeira para que ela se sentasse e perguntou:

– Nunca veio aqui?

– Nunca.

– Meus amigos gostam muito deste lugar.

– Além de tudo tem música ao vivo.

– Você gosta de dançar?

– Adoro.

Pediram uma bebida. A música estava convidativa e Gilberto a chamou para dançar. O rapaz dançava muito bem e, a partir de então, começaram momentos de encantamento para Isabel, que esqueceu todo o sofrimento da espera pela volta de Carlos, sua solidão e a frustração de seus sonhos da adolescência.

Para ela, naquele instante, só havia a beleza do lugar, a pegada firme de Gilberto, que a conduzia de maneira leve e gostosa, e o delicioso perfume que vinha dele.

Dançaram muito e Isabel, rosto corado e sorriso de prazer, sentia -se feliz. Jantaram muito bem e continuaram a dançar.

A partir daquela noite, começaram a sair e Isabel cada vez mais apreciava a gentileza de Gilberto, sua firmeza, seu temperamento alegre, sua inteligência, sua postura elegante e bonita.

Envolveram-se e começaram a namorar. Uma noite, ele a pediu em casamento e Isabel aceitou. A lembrança de Carlos estava distante e esquecida. Até o dia em que recebeu um telefonema da mãe de Carlos, dizendo haver recebido uma carta do filho. Ferido e encontrado sem documentos, fora feito prisioneiro de guerra. Estava na Alemanha Oriental sob o domínio russo e tivera dificuldade para conseguir ser libertado.

Quando conseguiu, a confusão era grande e ele não pôde obter documentos para regressar. Além disso, não tinha dinheiro para passagem e não conseguia um passe para voltar. Precisou trabalhar, ganhar algum dinheiro e, por fim, através da Cruz Vermelha, enviar a carta.

Nela, pedia à mãe que procurasse Isabel e lhe dissesse que estava com muita saudade e em breve voltaria para ela.

A notícia caiu sobre Isabel como uma bomba. Ficou alegre por ele ter sobrevivido, mas sua vida tinha mudado. Estava apaixonada por outro e muito feliz ao lado dele.

Naquela noite, encontrou-se com Gilberto e contou-lhe a novidade. Ele, que sabia de toda a história do noivado, permaneceu sério enquanto ouvia as notícias. Ela finalizou:

– Eu sofri muito por ele não ter voltado, julguei-o morto.

Procurei virar a página. Conheci você e minha vida mudou.

*

“A Vida Sabe o que Faz”
Autores: Zibia Gasparetto
Editora: Editora Vida e Consciência
Páginas: 320
Quanto: R$ 32,30 (preço promocional, por tempo limitado)
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha.

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