Dinheiro virtual, valor real

Imagine só: o governo americano está propondo injetar US$ 700 bilhões na sua própria economia para resolver a crise mundial criada pelos tais “títulos podres” – dívidas do setor imobiliário que deveriam ter sido pagas e não foram.

Mas o que são esses US$ 700 bilhões? O presidente Bush não vai sair dentro de um carro-forte distribuindo maletas de dinheiro por aí. Tudo que vai mudar são alguns números num computador!

Não sou nenhum especialista em economia. Longe disso. Mas sempre que penso sobre o assunto, tenho a impressão de que é um negócio muito louco. Algo quase que totalmente virtual – para não dizer surreal.

Pense no seu salário, por exemplo: todo fim de mês a empresa vai lá e deposita um dinheiro X para você. Aí você entra no site do banco e vê que a sua conta bancária aumentou de X para X+1. Maravilha. Mas pense bem: tudo que mudou foi um número no computador!

Aí você sai para comer uma pizza, paga a conta com o cartão de débito e o valor da sua conta muda de novo de X para X-1. Em seguida, você vai ao shopping comprar um presente de aniversário e mais um valor X é debitado do seu balanço.

Hoje em dia, com os sistemas de cartão de crédito e débito, você pode comprar e vender o que quiser, em qualquer lugar do mundo, sem nunca colocar a mão numa nota de dinheiro! Bilhões de dólares são trocados todos os dias no mercado financeiro internacional sem que ninguém precise enfiar a mão no bolso.

Mas então, cadê o dinheiro de verdade? E se algum terrorista cibernético apagasse todos os registros financeiros do planeta, como é que ficariam as coisas? O capitalismo desapareceria num piscar de olhos.

Outro exemplo: quando o presidente Collor confiscou as poupanças dos brasileiros em 1990, ele não mandou guardas armados invadir os bancos, retirar o dinheiro dos cofres e transferir tudo para a conta do governo em Brasília. Bastou uma canetada presidencial e pronto: gente que era rica ficou pobre da noite para o dia, e tudo que mudou foram números num papel ou numa tela de computador.

Loucura né? Mas é claro que não é tudo virtual. Lá no fundo de algum cofre esse dinheiro todo realmente existe. Quando alguém escreve R$ 500 numa folha de cheque, ou quando alguém digita US$ 700 bilhões numa tela de computador, isso vem acompanhado de um compromisso financeiro que tem valor real, ainda que esse dinheiro nunca seja transferido na forma física de um lugar para outro.

Afinal, pense bem: qual a diferença entre uma nota real e uma nota falsa de R$ 50? As duas são feitas de papel e tinta, com alguns números e desenhos pintados em cima. A diferença é que a nota verdadeira está atrelada ao valor real de algum produto ou serviço prestado, enquanto a nota falsa tem apenas um valor fictício.

Com base no número que sai escrito no meu extrato bancário todo fim de mês, eu posso ir até um caixa eletrônico e sacar alguns desses pedaços coloridos de papel que me dão o direito de comprar uma pizza, comprar um presente ou levar um monte de comida embora do supermercado para sobreviver. Ou seja: o dinheiro é uma representação física do valor de um serviço que eu prestei ao jornal. É um valor real, mas, ainda assim, é só um número escrito num pedaço de papel.

Mas já imaginou se o Antonio Ermírio de Moraes ou o Abílio Diniz resolvessem sacar todo o dinheiro deles de uma só vez? Não teria jeito … a riqueza deles está toda circulando por aí em fundos de investimento e coisas do tipo. Ou seja: muitos e muitos Xs sendo transferidos de um computador para outro ao redor do mundo. Talvez fosse mais seguro mesmo guardar o dinheiro no colchão!

Pense nisso a próxima vez que sacar dinheiro no caixa eletrônico.

 

fonte: estadão | Por Herton Escobar

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