Colar uma relação quebrada

Dois pedidos diferentes com o mesmo tema: um artigo sobre a possibilidade de colar uma relação interrompida por uma traição. O primeiro vem de uma leitora que não se conforma com a sensação de paraíso perdido. O segundo, de uma jornalista para uma entrevista que indique tipos de reações que mais aparecem para tipos diferentes de mulheres.

Há um provérbio antigo que diz: “não adianta lamentar o vaso quebrado, quando todas as forças do Universo se uniram para fazê-lo cair de suas mãos…”. Este pensamento reflete um pouco do que tenho passado aos casais com dificuldades: aquilo que se quer recuperar nunca mais estará intacto, portanto, livre das ilusões que o cercava, e se havia uma boa razão para acontecer, não há mais tempo de procurar culpados, erros ou maldizer a vida…    

Todos nós temos crenças sobre o que é – ou o que pensamos ser – o relacionamento e elas vêm de várias fontes: da educação, da família e muito da experiência com as relações anteriores. Essas crenças moldam os comportamentos que temos e o julgamento que fazemos sobre a qualidade e o rumo do relacionamento. Muitas delas foram passadas com a melhor das intenções, mas, a meu ver, muitas vezes, atrapalham mais do que ajudam. Há duas ilusões em especial que são comuns, mas extremamente prejudiciais às mudanças saudáveis, reflexões ou reajustes após uma traição:

“Quando acho meu parceiro, e nos amamos, juntos somos um só!”

Não são e nem devem ser um só! A maior queixa que recebo, principalmente, dos homens é o quanto este tipo de crença faz com que as amadas não permitam que eles pensem, sintam ou façam NADA que não seja com elas ou em relação a elas! Com o tempo, esse suposto paraíso torna-se prisão e as individualidades têm que começar a brigar para se estabelecer. Há pessoas que querem controlar até o tempo que o outro está dormindo, se não tiver certeza que está sonhando com ela… Com essa maneira de sentir, a traição é sentida como o pior dos pecados, como uma rebeldia sem causa, independente das circunstâncias. O relacionamento une duas pessoas inteiras, diferentes e o mais maravilhoso disso é que o resultado deve ser bem maior que a soma das partes!
“Se ele(a) realmente me ama, vai mudar!”

Se é fácil ou difícil para o parceiro responder a um pedido de mudança, isso tem a ver com o funcionamento dele, e nada a ver com quanto ele a ama! Parece que hoje qualquer mudança é  positiva, mas onde fica a maravilhosa virtude de aceitar os defeitos do parceiro e gostar muito de suas qualidades? Para haver uma transformação, que é mais do que uma mudança, um espaço positivo e arejado precisa se abrir entre as duas pessoas. Mesmo que seja causado pelo rombo de um rompimento…

Como seria uma possível volta de um relacionamento após uma traição? O que se poderia fazer de diferente? O que se poderia pensar de diferente? Porque em relação ao sentir, a personalidade influi muito na maneira de reagir à situação.

As impulsivas, que costumam agir antes de pensar, por exemplo, podem tomar decisões precipitadas, como terminar com o relacionamento sem ao menos ouvir a versão da outra pessoa, porque reagem com as “vísceras”, são 8 ou 80, e a primeira coisa que sentem num momento desses é a raiva, em forma de orgulho ferido. Entram em uma espécie de competição com o(a) rival, como se nenhum atenuante fosse possível para explicar deslizes ou erros.

Eduardo Galeano diz que os relacionamentos são como o fogo: temos que encontrar uma distância saudável deles. Se perto demais, acabamos queimados, se distantes demais, perdemos a emoção.

As sentimentais, emocionais ao extremo, aquelas cuja sensibilidade não agüenta críticas, e que costumam relevar tudo para todos: entregam-se ao choro e as queixas, achando que a vida acabou, sentindo-se como vítimas da situação, e podem cair na armadilha de achar que tudo acontece com elas, que sempre escolhem o homem errado, indo por um caminho de mágoa, e até entrar em depressão. O que precisam é ter objetividade e clareza de pensamento para superar o que costumo chamar de Má-Água, que, se represada, faz muito mal. Se deixada livre para correr com o fluxo, forma rios, correntezas e lindas cachoeiras.

As muito analíticas, racionais, ou práticas ao extremo: tendem a minimizar o ocorrido, dando explicações da boca pra fora, tentando explicar com a cabeça o que no coração está doendo de verdade. Para elas é aparentemente mais fácil aceitar uma traição, porque também querem mais liberdades para si mesmas num relacionamento. A lição a ser aprendida aqui, é que não falar sobre o que se quebrou, não conserta esse algo. Omitir não significa resolver o problema. E subestimar a dor emocional é correr o risco de, depois de um tempo, esses sentimentos reprimidos voltarem à tona como ressentimento. Re-sentir é ter que sentir novamente algo que não foi lidado, não foi trabalhado internamente, e que pode voltar com a mesma força descontrolada do  momento em que aconteceu.

No fundo o item fundamental para todos os tipos de reação é a maturidade da relação.  Quanto mais esse relacionamento tiver sido vivido em profundidade, quanto melhor se conhece e mais se respeita o companheiro, mais as decisões serão verdadeiras. E isso não tem a ver com a idade das pessoas, nem com o tempo que estão juntos. Tem a ver é com o quanto os envolvidos são congruentes com suas verdades individuais, com o quanto realmente conseguem ter empatia (colocar-se no lugar do outro mesmo!) e qual a importância que aquela outra pessoa tem para completar a sua missão de vida, ou quantos sonhos lindos ainda podem ser realizados em comum.

 Se esses fatores forem colocado na balança, vai valer a pena pagar pelo trabalho de colar os pedaços quebrados, porque se forem colados não como remendos, mas como uma restauração de uma obra preciosa, isso não tem preço!

Por Sonia Belotti /teias

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