(Comportamento – Emocional) O amor platônico…

Araçatuba – Cara-metade, a tampa da panela, alma gêmea ou metade da laranja. As denominações foram inseridas no vocabulário das pessoas que estão sempre em busca do seu par perfeito, com quem possam compartilhar um amor sublime e puro. Muitas delas já encontraram o grande amor, e quando a relação atinge um estado em que os interesses e desejos são comuns aos dois, o casal finalmente vive um amor platônico.
É isso mesmo. Ao contrário do que a grande parte da população acredita, amor platônico não é aquele em que a relação é realmente impossível, e nem aquele em que a pessoa amada não tem conhecimento desse amor.

A palavra platônico é uma homenagem ao filósofo Platão (427 a.C. – 347 a.C), que viveu na Grécia antiga e considerava o amor espiritual mais importante do que o amor carnal. Segundo sua filosofia, o amor tem a função de possibilitar um crescimento espiritual por meio de uma relação saudável entre pessoas que têm os mesmos objetivos e projetos.

A psicóloga, terapeuta sexual e de casal, Márcia Atik, explica que Platão propagava o amor ao belo e à perfeição. “Para o filósofo, esse amor precisava ser vivido como um processo de ascensão espiritual que, partindo do amor carnal se desenvolve numa crescente rumo a um estado de contemplação do ideal”, explica. Ela ressalta, entretanto, que a expressão “amor platônico” precisa ser inserida no contexto da atualidade.

OBJETIVOS COMUNS – Em uma relação entre um casal, o amor platônico se manifesta nos desejos e objetivos comuns. “As pessoas podem ter uma frustração em relação ao seu par. Mas o amor resiste e supera porque uma coisa maior os liga. Não podemos também fazer uma apologia ao amor platônico em detrimento do amor carnal”. Para Márcia, os dois amores devem ser aliados para que a relação seja completa. “Os dois elementos juntos potencializam a relação”.

Amor platônico, no entanto, não deixa de ser erótico. A palavra vem do deus grego Eros, erroneamente ligado à sexualidade. “Eros representa o amor ao belo e à vida, e, por isso, está nos ensinamentos passados por Platão”, explica a psicóloga.

“O Banquete”, obra de Platão que mais revela o pensamento grego a respeito do amor, mostra uma passagem de Aristófanes falando sobre a origem desse sentimento. (Leia abaixo). Segundo ele, os seres humanos tinham duas cabeças, quatro pernas e quatro braços.

Zeus dividiu cada um desses seres, fazendo com que se sentissem pela metade. Por isso, a busca eterna pela “alma gêmea” de cada um. Márcia revela, porém, que no decorrer de seus estudos percebeu que o sentido de cara-metade deve ser mais abrangente.

“Acredito que devemos entrar em uma relação com a nossa personalidade por inteiro. A idéia não é se transformar em um só, mas construir um terceiro elemento, que é essa relação entre dois seres completos”.

Para a psicóloga, é possível viver uma relação completa com o companheiro e ao mesmo tempo sentir amor platônico por outras pessoas. “O amor platônico é também amor por uma causa ou projeto. É a afinidade entre colegas de trabalho, por exemplo. Quando há a busca por objetivos e sonhos em comum, isso não é considerado infidelidade na relação entre marido e mulher”.

IDADE – Ela explica também que o amor platônico pode acontecer em qualquer idade, desde que haja maturidade para reconhecer os desejos. “Isso pode ocorrer em qualquer idade sem dúvida, mas principalmente naquela que eu chamaria de idade da razão, quando o indivíduo é responsável por suas escolhas”.

Pessoas que optam pelo celibato e que são felizes, geralmente são ligadas intimamente a algum tipo de trabalho e vivem um amor platônico por essa obra. Outro exemplo de amor platônico não necessariamente por uma pessoa, é sentido por aqueles que trabalham com o belo. “Quando artistas e escritores estão envolvidos em seus projetos, eles estão vivendo o amor platônico erotizado, porque aquilo lhes dá prazer”, explica Márcia.

Em seus trabalhos a psicóloga procura desvincular a rima das palavras “amor” e “dor”. Segundo ela, as teorias judaicas-cristãs originaram a idéia de que é preciso sofrer para viver um amor. “A sociedade valoriza aqueles que se sacrificam e se vitimizam por um amor, mesmo que elas não desejem passar por aquele sofrimento. O amor precisa ser visto como forma de libertação”. Uma frase do livro “Terra dos Homens”, de Antoine de Saint-Exupéry (o mesmo autor de “O Pequeno Príncipe”), diz o seguinte: “A experiência mostra que amar não é um olhar para o outro, mas ambos numa mesma direção”.

Márcia faz uma paráfrase dizendo que amar é olhar um para o outro “e” ambos na mesma direção. “Dessa forma podemos ser seres completos, ao unir o amor carnal e o amor platônico, aquele que nos dá a base verdadeira e essencial para qualquer relacionamento”, acredita.

TRECHO DE “O BANQUETE”, DE PLATÃO, FALA DE ARISTÓFANES

“Se diante deles, deitados no mesmo leito, surgisse Hefesto e com seus instrumentos lhes perguntasse: Que é que quereis, ó homens, ter um do outro? E se, diante do seu embaraço, de novo lhes perguntasse: Por ventura é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais possível um para o outro, de modo que nem de dia, nem de noite vos separeis um do outro? Pois se isso é o que desejais, quero fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois vos torneis um só e, enquanto viverdes, como uma só pessoa, possais viver ambos em comum, e depois que morrerdes, lá no Hades, em vez de dois ser um só, mortos os dois numa morte comum; mas rude se é isso o vosso amor, e se vos contentais, se conseguirdes isso. Depois de ouvir essas palavras sabemos que nem um só diria que não, ou demonstraria querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que há muito estava desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só. O motivo disso é que nossa antiga natureza era assim e nós éramos um todo; e por tanto ao desejo e procura do todo que se dá o nome de amor”.

 

fonte: folha da região.

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